Cirurgia

Mastectomia e depressão: a importância da reconstrução mamária para o bem-estar

No fim da década de 1990, a empresária Ala Szerman, uma referência na área de saúde e bem-estar, descobriu um câncer de mama e precisou fazer uma mastectomia. Depois disso, entrou em depressão, vendeu todas as suas propriedades e se retraiu. Ela definiu a perda do seio como uma “invalidez psíquica”. Essa é uma definição bastante precisa.

Vários estudos mediram o impacto desse tipo de cirurgia na autoestima das pacientes. E quanto mais radical a cirurgia, maior o sofrimento emocional. Cerca de 35% das mulheres que passam por uma mastectomia total desenvolvem quadros de depressão; no caso da lumpectomia ou da quadrantectomia, que são mastectomias parciais, essa porcentagem não chega a 10%.

Daí a importância da reconstrução mamária. Ela vai além da correção estética, já que essas comorbidades psicológicas podem influir inclusive na continuidade do tratamento e na saúde geral da paciente. Nesse sentido, houve avanços muito positivos, e determinantes para o bem estar psicológico e emocional das pacientes. Um deles é a lei nº 12.802, que obriga o Sistema Único de Saúde (SUS) e os convênios médicos a realizarem a cirurgia reparadora em mulheres que retiraram a mama devido ao câncer.

Outro grande avanço foi a reconstrução mamária imediata, feita juntamente com a mastectomia. Estudos mostram que este tipo de intervenção tem um melhor resultado estético e menor impacto psicológico do que a reconstrução tardia.

Tipos de cirurgia

Existem três tipos de cirurgia para a retirada do nódulo. A mastectomia parcial preserva parte da mama. Se a área retirada afetar a simetria das mamas, pode ser feito um enxerto de gordura retirado do corpo da própria paciente.

A mastectomia unilateral é a retirada apenas da mama onde foi identificado o tumor. Nesse caso, a reconstrução da mama é feita com uma prótese de silicone de formato e volume equivalentes à mama preservada.

Por último, existe a dupla mastectomia, quando ambas as mamas são retiradas. Foi o que fez a atriz Angelina Jolie em 2013. No caso dela, a retirada das mamas foi uma forma de prevenção, já que ela apresentava 87% de chances de desenvolver um câncer de mama futuramente. Ela fez a retirada das mamas e a reconstrução imediata.

Uma pesquisa norte-americana, feita em parceria com o INCA, constatou que, entre os anos de 2002 e 2012, esse tipo de procedimento teve um aumento de 2,9% do total de mastectomias para 12,7% – e 59% dessas cirurgias foram preventivas.

As próteses para reconstrução

As próteses mamárias já têm mais de 50 anos de idade, e nesse período evoluíram muito. Existem hoje três linhas de implantes: os lisos, os texturizados, e os de poliuretano. Todos são feitos de silicone, mas os últimos são revestidos por uma lâmina de poliuretano texturizado. Estes são os mais indicados atualmente, pois têm menor taxa de rejeição.

Mas nem todas as pacientes podem ser submetidas à reconstrução imediata. Tudo vai depender da quantidade de pele restante depois da mastectomia. Quando a pele é insuficiente, e não permite a colocação imediata da prótese, pode-se usar uma prótese expansora. Esse tipo é como se fosse uma prótese vazia, que é colocada na mama e vai sendo expandida com soro fisiológico até atingir o tamanho desejado.

Depois de alcançar o tamanho final, ela é substituída por uma prótese definitiva. Mas mesmo essas próteses estão evoluindo, e hoje existem modelos que não precisam ser trocados. Em outros casos, pode ser necessário retirar pele de outra parte do corpo para a reconstrução. Chamada de retalho, pode vir das costas ou do abdômen.

As próteses não representam risco de recidiva para as pacientes, nem atrapalham os exames de rotina, como a mamografia e o ultrassom.

Cenário atual

Mas mesmo com todos esses avanços, tanto da legislação quando das técnicas empregadas nas cirurgias reconstrutoras, apenas 20% das mais de 90 mil mulheres que passaram por uma mastectomia entre 2008 e 2015 fizeram a cirurgia de reconstrução. Os números são da Sociedade Brasileira de Mastologia, com base em dados do Departamento de informática do SUS. Para a SBM, o problema são a falta de estrutura para o atendimento da demanda e o número insuficiente de médicos qualificados.

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