Cirurgia

Reconstrução mamária: confira a palestra de Felipe Coutinho na abertura do Outubro Rosa

No dia 3 de outubro, a Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo recebeu um time de peso para a Abertura Oficial do Outubro Rosa. Ao lado de profissionais como o oncologista Carlos Alberto Ruiz e a ginecologista Albertina Duarte, o cirurgião plástico Felipe Coutinho foi convidado a realizar uma palestra sobre reconstrução mamária, área em que é referência.

Confira a palestra na íntegra:

“Estou na área de reconstrução mamária há 20 anos. Logo que terminei a residência em cirurgia plástica, no Hospital das Clínicas, fui trabalhar no Perola Byington. Lá passamos por muitos desafios que, naquela época, pareciam inalcançáveis. Era uma época, nos anos 1990, em que a reconstrução mamária era considerada uma cirurgia estética. O SUS não autorizava a reconstrução de mama, nenhum convênio reconhecia a reconstrução mamária como um procedimento reparador.

Nessa época, estávamos lá com o embrião dessa força, que foi esse grupo multidisciplinar, que envolvia vários profissionais: o oncologista cuidando da doença, a gente cuidando da reconstrução, psicólogo, terapeuta, nutricionista, quimioterapeuta, redioterapeuta, uma equipe gigante para recuperar as pacientes que estavam passando por essa situação tão difícil.

De lá para cá, muita coisa melhorou, e vem melhorando cada vez mais. Hoje temos o reconhecimento da cirurgia mamária como uma cirurgia reparadora. Isso significa que as pacientes têm direito a ela, tanto no sistema SUS quanto pelos convênios. Isso representou um avanço enorme.

A importância de a gente olhar para trás é que a gente enxerga o quanto era rudimentar até pouco tempo atrás, como está avançado hoje e como provavelmente no futuro as soluções vão ser ainda melhores.


O início

Como começou toda essa história? Em 1894, um famoso cirurgião inglês, Sir William Halsted, padronizou uma forma de tratar o câncer de mama. Essa alternativa durou 100 anos. Ele retirava toda a mama, os dois músculos e os gânglios da axila. Essa era uma cirurgia extremamente mutiladora, mas que na época salvava vidas.

Mais de 100 anos depois, em 1994, o italiano Veronesi trouxe à tona a possibilidade de uma cirurgia chamada conservadora, onde não havia mais a necessidade de retirada de toda a mama. Junto com o progresso veio a radioterapia, então a associação dessa cirurgia parcial com a radioterapia trazia resultados muito semelhantes à cirurgia anterior. Na recuperação de mama, também o avanço foi fenomenal. Em 1942, havia técnicas de trazer partes da mama sã para a região de onde foi retirada a mama.

Em 1963 houve a primeira publicação do uso do silicone, nos EUA, depois o expansor de tecido, prótese que é inserida vazia na região da mastectomia para esticar essa pele e esse músculo para recuperar finalmente a mama.

Nas opções de recuperação de mama, desde muito tempo, havia essa possibilidade de reconstruir com tecidos vizinhos. Um deles é o tecido das costas, chamado grande dorsal, que foi descrito pela primeira vez em 1906. É uma cirurgia bastante mutiladora, mas era na época o que tinha de mais moderno.

Muitos anos depois, nos anos 1980, o cirurgião americano Carl Hartrampf Jr. popularizou uma alternativa de reconstrução usando a pele do abdômen – nessa época, havia uma epidemia de sobrepeso na América, com a comida industrializada, a vida moderna, as pacientes ganhavam peso e tinham excesso de volume na região abdominal.


Avanços

Como a gente pensa a reconstrução mamária hoje? Primeiro de tudo, prevalece o desejo da paciente. Não obrigatoriamente a paciente precisa reconstruir. Não é uma obrigação. Isso é um ganho, uma alternativa, um caminho. Mas uma vez que entendemos que esse é o melhor caminho para se restaurar totalmente e vencer a doença, a gente precisa avaliar as condições da paciente e a partir daí entender toda essa importância da mama.

Gostaria de ressaltar que a mama é um simbolo da beleza do corpo feminino, da possibilidade de exercer a sexualidade e a maternidade. E a cirurgia, a retirada da mama, tem um impacto devastador. Ela é mutiladora, mexe com a autoimagem, com a autoestima. E muitas vezes resulta em depressão.

Hoje a recuperação pode ser realizada no mesmo momento da retirada da mama, ou quando a mama já foi retirada, em uma reconstrução tardia. A vantagem de reconstrução no mesmo dia são óbvias: a paciente não convive com a falta da mama, a mutilação. Mas é uma cirurgia mais longa, depende de uma afinidade entre as equipes, por isso o mastologista e o cirurgião plástico têm que trabalhar juntos.

Com o avanço dos tratamentos e toda essa campanha do Outubro Rosa, que favorece o diagnóstico precoce, não vemos mais aquela cirurgia mutiladora com retirada total da mama. Isso é quase um evento isolado.

Hoje os mastologistas estão superavançados em seus métodos diagnósticos, então a gente não precisa, na maioria das vezes, usar a pele do abdômen ou das costas. A gente pode usar imediatamente uma prótese ou uma expansora, para já recuperar a mama.

Quando é necessária a retirada da aréola e do mamilo, também existem formas de reconstruir essas duas unidades, que podem ser feitas com a pele da própria mama e com tatuagem.

Queria mostrar aqui que essa unidade – diagnóstico precoce, afinidade com o mastologista e com todos os envolvidos – nos permite devolver a mama que foi necessariamente retirada por causa do tratamento do câncer. E isso dá segurança e esperança para atravessar esse momento tão difícil.

É importante que vocês, que conhecem uma paciente que está passando por essa situação, que não percam as esperanças, porque existe solução. A reconstrução mamária hoje é acessível, pelo sistema SUS, pelos convênios, e a gente consegue resgatar essa mama e devolver a essa paciente uma situação idêntica à que ela tinha antes, para ela reestruturar sua vida e seguir em frente.”

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